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[Texto] Niilismo

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[Texto] Niilismo

Mensagem por General em Qui Nov 01, 2012 3:41 pm


Mas em que consiste o niilismo?

Vejamos as respostas dadas por Nietzsche, que atingem uma clareza exemplar.

Num fragmento, sempre de 1887 (o ano crucial em que Nietzsche amadureceu essa problemática), lemos: “Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao ‘por quê?’; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizam”.
Os pressupostos do niilismo são “Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma ‘coisa em si’”.

E eis um violento destaque desse conceito: “Contra a suposição de que um ‘em si das coisas’ deveria ser necessariamente bom, feliz, verdadeiro, uno, a interpretação de Schopenhauer do ‘em si’ como vontade foi um passo essencial; contudo, ele não soube divinizar essa vontade: deteve-se no ideal moral cristão. Schopenhauer ainda estava dominado a tal ponto pelos valores cristãos que era obrigado a ver a coisa em si – depois que ela deixou de significar ‘Deus’ para ele – como má, estúpida, como algo que se devia rejeitar de uma vez por todas. Ele não compreendera que pode haver infinitas formas de poder-ser-outro e até de poder-ser-Deus. Maldição daquela dualidade limitada: bem e mal”.

Explicitando os pontos básicos desses esclarecimentos, poderíamos dizer que o niilismo leva à desvalorização e à negação dos seguintes princípios:
a) princípio primeiro, Deus;
b) fim último;
c) ser;
d) bem;
e) verdade.

Segundo Nietzsche, pode-se ver o niilismo como um aspecto “de crescimento da potência do espírito”, ou seja, como “niilismo ativo”, pois tem a força destrutiva da fé nos valores que perderam sentido, embora tal força não tenha ainda energia suficiente para apresentar-se como criadora de um novo fim e de uma nova fé.

Mas ele também pode ser considerado em seu aspecto “passivo”, negativo, e, portanto, como sinal de fraqueza. Pois a força que é própria do espírito a certo se sente cansada, esgotada, em consequência do fato de os objetivos considerados válidos até certo momento serem sentidos como inadequados, e por conseguinte caírem em descrédito. E, portanto, a “síntese dos valores e dos fins (em que repousa toda cultura forte) se dissolve, de modo que passa a haver o choque entre os valores individuais: desagregação; tudo o que restaura, cura, tranquiliza, atordoa estará em primeiro plano, sob diversas roupagens, religiosas, morais, políticas, estéticas, etc.”

Nietzsche resumiu a essência do niilismo, em sentido global, na fórmula “Deus está morto”. Vale a pena explicar esse slogan de forma detalhada.

A morte de Deus
Uma das passagens mais violentamente iconoclastas é sem dúvida a que está na obra A gaia ciência, que traz o título “O insensato”: “Nunca ouviram falar de um louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e se pôs a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Como lá se encontravam muitos que não acreditavam em Deus, provocou muitas risadas. ‘Será que ele se perdeu?’, disse alguém. ‘Perdeu-se como uma criança?’, falou outro. ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra. O louco pulou no meio deles e traspassou-os com o olhar: ‘Para onde foi Deus?’ – bradou. – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar, bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente? Para a frente, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando como através de um infinito nada? Não sentiremos no rosto o sopro do vazio? Não está mais frio? Não surgem noites, cada vez mais noites? Não será preciso acender lanternas pela manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram a Deus? Não sentimos o mau cheiro da decomposição divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos! [...] Jamais houve ação tão grandiosa e os que nascerem depois de nós pertencerão, em virtude dessa ação, a uma história mais elevada do que todas as histórias até hoje!’ Após pronunciar essas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se. ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu -, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, serem vistas e entendidas. [...]’ Conta-se ainda que esse louco penetrou, nesse mesmo dia, em diversas igrejas e ali entoou o seu Requiem aeternam Deo. Expulso e interrogado, dizem que se limitou a responder sempre a mesma coisa: ‘De que servem estas igrejas se são tumbas e monumentos de Deus?’”.

A passagem corre o risco de ser mal interpretada, sobretudo se desvinculada daquele círculo hermenêutico nietzschiano, que é centrado justamente no niilismo. Uma passagem paralela da mesma obra pode levar a desvios ainda maiores. Nela, Nietzsche enfatiza que o mais importante dos acontecimentos recentes é que “Deus está morto” e esclarece que “a fé no Deus cristão tornou-se inaceitável”.

O mal entendido consistiria em acreditar que tais afirmações exprimem um mero ateísmo, por constituírem apenas a opinião de um não-crente e, ainda por cima, de um não-crente como Nietzsche, que – entre outras coisas – morreu louco, precisamente como o personagem simbólico que é levado a pronunciar a afirmação iconoclasta “Deus está morto”.

A interpretação de Heidegger
O significado da afirmação da morte de Deus tem um alcance bem mais amplo do que o de exprimir uma forma de ateísmo comum, como Martin Heidegger demonstrou muito bem no magistral ensaio A sentença de Nietzsche “Deus está morto”.

Depois de reproduzir a primeira passagem que citamos acima, e de evocar também a segunda, justamente para explicar a menção explícita do Deus cristão, Heidegger escreve: “Essa passagem evidencia que a afirmação de Nietzsche acerca da morte de Deus refere-se ao Deus cristão. Mas também é certo, e deve ser levado em conta desde então, que as expressões ‘Deus’ e ‘Deus cristão’ são empregadas, no pensamento de Nietzsche, para indicar o mundo supra-sensível em geral. ‘Deus’ é o termo para designar o mundo das idéias e dos ideais. Desde Platão – ou melhor, desde o último período da filosofia grega e da interpretação cristã da filosofia platônica -, esse mundo do supra-sensível tem o mesmo valor que o mundo verdadeiro, o autenticamente real. Em oposição a ele, o mundo sensível é simplesmente o mundo terreno, o mundo mutável, aparente e irreal. O mundo terreno é o vale de lágrimas, em contraposição à eterna felicidade supraterrena. Se, como ainda faz Kant, entendemos o mundo sensível como mundo físico no sentido mais amplo, o mundo supra-sensível passará a ser o mundo metafísico. Assim, a expressão ‘Deus está morto’ significa que o mundo ultra-sensível não tem força real, não envolve nenhum tipo de vida. A metafísica, ou seja – para Nietzsche – a filosofia ocidental entendida como platonismo, está no fim. Nietzsche considera sua filosofia como a contracorrente da metafísica, isto é, para ele, do platonismo”.

Heidegger esclarece essa idéia numa página que é preciso reproduzir e ler tão atentamente quanto a anterior, porque chega ao núcleo do problema: “O niilismo, pensado em sua essência, é antes o movimento fundamental da história do Ocidente. Ele revela um curso tão profundamente subterrâneo, que seu desenvolvimento só poderá determinar catástrofes mundiais. O niilismo é o movimento histórico universal dos povos da Terra, na esfera de poder do Mundo Moderno. Não é, pois, um fenômeno da época atual e tampouco um produto do século XIX, embora tenha despertado nesse século uma consciência mais aguda em relação a ele e o termo tenha começado a ser empregado. Tampouco se pode dizer que o niilismo é apenas um produto das nações em que pensadores e escritores falam expressamente dele. Os que se consideram imunes a ele determinam seu desenvolvimento talvez de modo ainda mais radical. O fato de não poder revelar sua proveniência faz parte da inquietude que cerca esse hóspede extremamente perturbador. O niilismo não começa só onde o Deus cristão é negado, o cristianismo é combatido, ou onde se prega um ateísmo vulgar baseado no livre-pensamento. Enquanto considerarmos exclusivamente a descrença como afastamento do cristianismo e suas manifestações, não iremos além dos aspectos mais extrínsecos e acidentais do niilismo. O discurso do insensato serve justamente para demonstrar que a expressão ‘Deus está morto’ nada tem em comum com as opiniões dos que o cercavam discorrendo entre si, dos que ‘não acreditavam em Deus’.

Nos descrentes nesse sentido, o niilismo ainda não penetrou como destino de sua história. Enquanto entendermos a expressão ‘Deus está morto’ apenas como fórmula da descrença, só estaremos pensando de modo teológico-apologético, renunciando ao objetivo do pensamento de Nietzsche, ou seja, à reflexão que tende a pensar o que já aconteceu à verdade do mundo supra-sensível e à sua relação com o mundo sensível”.

A “morte de Deus”, portanto, significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais.

A anulação dos valores e a perda dos ideais
Algumas afirmações do próprio Nietzsche demonstram que a exegese de Heidegger não constitui apenas uma reflexão teórica da mensagem nietzschiana, mas um verdadeiro esclarecimento de caráter hermenêutico.

Num fragmento, que já recordamos aqui, Nietzsche afirma claramente que o niilismo consiste no fato de que “os valores supremos se desvalorizam”. Em outro fragmento, podemos ler: “o ideal foi até agora a força caluniadora do mundo e do homem propriamente dita, o sopro venenoso sobre a realidade, a grande sedução que leva ao nada…”.
Ainda em outro fragmento, intitulado Diário do niilista, esclarece-se plenamente o conceito de “ateísmo” no sentido de niilismo: “tudo existe, mas não há fins – o ateísmo como falta de ideais”.

E, por fim: “A mudança absoluta que ocorre com a negação de Deus – Não temos mais absolutamente nenhum Senhor acima de nós; o velho mundo dos valores é teológico – este é derrubado”.

Em suma, a afirmação “Deus está morto” é a fórmula emblemática do niilismo e significa que o mundo meta-sensível (o mundo metafísico) dos ideais e dos valores supremos, concebido como ser em si, como causa e como fim – ou seja, como aquilo que dá sentido a todas as coisas materiais, em geral, e à vida dos homens, em particular –, perdeu toda consistência e toda importância.


A transvaloração de todos os valores e a vontade de potência

Nietzsche sabe muito bem que, mesmo depois da anulação completa de todos os ideais e valores considerados supremos no passado, a vida do mundo e do homem continuam. Mas é evidente que os valores são uma condição que, ao ser eliminada, torna a vida absurda.

Vejamos, em poucas palavras, quais são suas conclusões.

Os valores não se baseiam no ser e no verdadeiro, não constituem algo “em si e para si”, mas são pontos de vista, são meramente aquilo que, a partir de determinado ponto de vista, se impõe como condição de preservação e de progresso da vida.

O devir e a vida são “vontade de potência”, e os valores estão estreitamente ligados a tal “vontade de potência”, que se impõe como fonte de todos os valores “transvalorados”.

Escreve Nietzsche: “Os valores e sua variação estão relacionados com o aumento da potência de quem põe os valores; a medida de incredulidade, de uma reconhecida “liberdade do espírito” como expressão do aumento de potência; niilismo como ideal de suprema potência do espírito, de vida riquíssima: em parte destrutivo, em parte irônico”.

A transvaloração dos valores proposta por Nietzsche comporta, pois, uma inversão dos antigos valores e um deslocamento destes da esfera da transcendência para a esfera da vontade de potência.

Contudo, essa expressão pode levar facilmente a equívocos: de fato, tem um significado muito mais complexo do que teria se se assumissem os significados que têm os termos “vontade” e “potência” na linguagem comum.
Como os mais conceituados intérpretes de nosso filósofo esclareceram, a “vontade” em sentido nietzschiano deve ser entendida como uma auto-imposição e uma ordem e, precisamente, como uma imposição para um aumento de si mesma.

Eis uma das passagens mais eloquentes: “Reabsorva-se novamente aquele que faz no fazer, depois de tê-lo extraído conceptualmente, esvaziando assim o fazer. Retome-se de novo no fazer o fazer alguma coisa, a ‘meta’, a ‘intenção’, o ‘fim’, depois de se ter extraído artificialmente do fazer a finalidade, esvaziando assim o fazer. Todos os ‘propósitos’, as ‘metas’, os ‘significados’ não passam de expressões e metamorfoses da única vontade que é inerente a cada acontecimento, a vontade de potência; ter objetivos, metas, intenções, querer em geral equivalem a um querer se tornar mais fortes, a um querer crescer, e, além disso, a querer também os meios; o instinto mais universal e elementar, em todo fazer e querer, permaneceu o mais desconhecido e escondido justamente porque, na prática, seguimos sempre sua ordem, porque somos esta ordem…

Todos os juízos de valor são apenas conseqüências e perspectivas restritas a serviço dessa única vontade; o próprio julgar é apenas essa vontade de potência; uma crítica do ser com base em qualquer um desses valores é algo como um contra-senso e um equívoco; mesmo se tudo isso entrasse num processo de decadência, esse processo serviria ainda àquela vontade…”.

A realização da vontade de potência em suas várias possibilidades e os modos em que ela se constitui, estruturando-se e articulando-se de várias maneiras, é a “arte”, que vem portanto a se impor como uma espécie de valor supremo.
E por “arte” Nietzsche entende não apenas a arte no significado comum do termo (a arte dos diversos “artistas” que atuam no interior da esfera da busca do belo), mas a força mesma da vontade de potência, que a estimula e a impele a se desdobrar em sentido cósmico em todos os níveis. Em tal sentido, a “arte” vem a ser, além da fonte, a própria realização da possibilidade da vida.

Uma passagem intitulada A vontade de potência. Tentativa de uma transvaloração de todos os valores resume perfeitamente os conceitos fundamentais de que estamos falando: “A concepção do mundo em que se baseia este livro [Nascimento da tragédia, 1872] é singularmente fosca e desagradável; entre os tipos de pessimismo conhecidos até agora parece que nenhum tenha alcançado o mesmo grau de maldade. Aqui falta a contraposição entre um mundo verdadeiro e um mundo aparente: há apenas um mundo, e ele é falso, cruel, contraditório, corrupto, sem sentido… Um mundo desses é o verdadeiro mundo… Nós precisamos da mentira para derrotar esta realidade, esta ‘verdade’, ou seja, para viver… Que a mentira seja necessária para viver, também isso faz parte deste terrível e problemático caráter da existência… A metafísica, a moral, a religião, a ciência – neste livro são considerados apenas como diferentes formas da mentira: com seu subsídio, acredita-se na vida. ‘A vida deve inspirar confiança’: a tarefa, posta dessa forma, é imensa. Para leva-la a termo, o homem deve ser, já por sua natureza, um mentiroso, deve ser, antes de qualquer outra coisa, um artista… E ele o é: metafísica, moral, religião, ciência – nada mais são do que criaturas de sua vontade de arte, de mentira, de fuga diante da ‘verdade’, de negação da ‘verdade’. Essa mesma faculdade, graças à qual ele violente a realidade com a mentira, esta faculdade artística por excelência do homem – ele a compartilha com tudo o que existe; aliás, ele próprio é uma parte de realidade, de verdade e de natureza – ele próprio é também uma parte do gênio da mentira… Que o caráter da existência seja menosprezado – é o profundo e supremo fim recôndito da ciência, da religiosidade, da tendência artística. Nunca ver muitas coisas, ver outras falsamente e ver muitas outras que não existem… Oh, como somos espertos, mesmo nas situações em que estamos bem longe de nos considerar espertos! O amor, o entusiasmo, ‘Deus’ – não passam de sutilezas de um extremo engano de si mesmo, de seduções que impelem a viver! Nos momentos em que o homem se torna o enganado, em que acredita novamente na vida, em que enganou a si mesmo: oh, como ele então se vangloria! Que delícia! Que sentido de potência! Quanto triunfo do artista há na vontade de potência!… O homem afirmou ainda uma vez sua soberania sobre a ‘matéria’ – sua soberania sobre a verdade!… E cada vez que o homem se alegra, é sempre o mesmo em sua alegria: alegra-se como artista, usufrui de si mesmo como potência. A mentira é a potência… A arte e nada mais que a arte. Ela é a grande criadora da possibilidade de viver, a grande sedutora da vida, o grande estímulo para viver…”.

A esta inversão de todos os valores em função da vontade de potência liga-se estreitamente também o significado de “super-homem”. Não se trata de um tipo de superespécie de homem, mas vem a ser aquele tipo de homem que se põe na base justamente da vontade de potência e age de acordo com as estruturas e as articulações dessa vontade.

O niilismo levado às últimas consequências
Diante de passagens como as acima citadas, convém perguntar se Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo, ou se, ao contrário, a posição que ele assumiu não passa de um niilismo destrutivo levado às últimas consequências.

Heidegger deu respostas exemplares, as quais se impõem mesmo quando desvinculadas das posições teóricas que em grande medida as sustentam.

Recordo aqui as três passagens mais significativas a esse respeito.

No primeiro Heidegger, esclarece-se o seguinte: “Não obstante toda derrubada e inversão da metafísica, Nietzsche não se desvia de seu curso ininterrupto quando concebe aquilo que a vontade de potência intui para a própria conservação como o ser, o ente, ou a verdade. A verdade resume-se, então, numa condição posta pela essência da vontade de potência, e precisamente na condição de conservação de sua potência. Resumindo-se nessa condição, a verdade é um valor. Como a vontade de potência só pode querer dispondo de algo permanente, a verdade torna-se um valor necessário para a vontade de potência e fundamenta sua essência. O termo verdade não significa nem o não-ser-escondido do ente, nem a concordância do conhecer com o objeto, nem a certeza como segurança daquilo que é posto no pôr representativo. A verdade é entendida aqui – num sentido que deriva historicamente das modalidades derivadas de sua essência – como certeza da presença disponível do círculo a partir do qual a vontade de potência quer a si mesma.

No segundo Heidegger, esses esclarecimentos aprofundam-se ainda mais: “O que resta do ser? Do ser resta o nada. E se justamente aqui se revelasse a essência do niilismo, que até agora ficou escondida? Será que o verdadeiro niilismo consistirá em pensar por valores? Mas Nietzsche concebe a metafísica da vontade de potência justamente como superação do niilismo.

Uma vez que o niilismo é pensado apenas como a derrubada dos valores supremos e a vontade de potência como o princípio da inversão de todos os valores em virtude de uma nova posição dos valores supremos, a metafísica da vontade de potência é certamente uma superação do niilismo: sob o pressuposto, porém, de que o pensar por valores seja transformado em princípio. Mas se o valor não permite que o ser seja o ser que é como ser, a pretensa superação será apenas o cumprimento do niilismo”.

São estas as afirmações conclusivas de Heidegger acerca desse problema: “O assegurar-se, como aquisição de segurança, fundamenta-se na posição de valores. A posição de valores submeteu a si todo ente, matando-o em seu em si. Este último golpe ao assassinato de Deus é desferido pela metafísica, que, como metafísica da vontade de potência, dilui o pensamento no pensamento de valores. Contudo, esse golpe extremo pelo qual o ser é reduzido a simples valor não é reconhecido por Nietzsche naquilo que é, ou seja, em relação ao próprio ser. Mas não é Nietzsche quem proclama: ‘Nós todos somos assassinos, vocês e eu!’? Com certeza. Com base nisso, ele considera a própria metafísica da vontade de potência como niilismo. Sem dúvida. Mas para Nietzsche isso significa simplesmente que esta, como contracorrente e inversão de todos os valores anteriores, realiza mais radicalmente, porque definitivamente, aquela ‘derrubada de todos os supremos valores anteriores’ que já estava em curso”.

Não há dúvida: a transferência dos valores da esfera do ser e da transcendência para a esfera imanente da vontade de potência e a respectiva transvaloração radical dos valores supremos constituem a etapa conclusiva e completa do niilismo que foi descrito e interpretado pelo próprio Nietzsche. Nada impede que sua proposta alternativa seja definida da forma como John Findlay define o procedimento do pensamento de Heidegger para Sendas perdidas [Holzwege]: “Trata-se de uma viagem por uma estrada revestida de desespero em direção a uma frustração predeterminada”, ou, eu diria, para um desespero predeterminado.

E a loucura final que encerra a existência terrena de Nietzsche é uma espécie de encarnação emblemática desse fim da estrada do niilismo.

O estado intermediário: o niilismo incompleto

Entre o estado caracterizado pela destruição dos valores supremos tradicionais e a transvaloração completa desses valores há, porém, um estado intermediário. Nos Fragmentos póstumos lemos: “Os supremos valores, para servir os quais o homem deveria viver, sobretudo quando o dominassem de forma muito pesada e excessiva: estes valores sociais foram edificados, com a finalidade de reforçar sua influência, sobre o homem, quase como se fossem mandamentos de Deus, como ‘realidade’, como mundo ‘verdadeiro’, como esperança e mundo futuro. Agora que a origem mesquinha de tais valores se evidencia, o universo nos parece desprovido de valor, ‘desprovido de sentido’… mas este é apenas um estado intermediário”.
Ora, esse estado intermediário pode dar origem (e aliás dá origem de maneira evidente) a um niilismo incompleto, que procura subtrair-se às consequências do próprio niilismo, com vários disfarces dos valores supremos, que vão do saber científico à práxis social, com uma série de matizes.

Nietzsche escreve: “Proposição principal. Em que sentido o perfeito niilismo é a consequência necessária dos ideais alimentados até agora. – O niilismo incompleto, suas formas: nós vivemos no meio dele. – As tentativas de fugir do niilismo sem transvalorar esses valores: produzem o contrário, agudizam o problema.

E ainda, dizendo um de seus categóricos “não” aos disfarces dos antigos valores, afirma: “Meu reconhecimento e minha identificação do ideal tradicional, o cristão, mesmo lá onde se eliminou a forma dogmática do cristianismo. O perigo do ideal cristão esconde-se em seus sentimentos de valor, naquilo que pode prescindir da expressão conceptual: minha luta contra o cristianismo latente (por exemplo na música, no socialismo)”.

O sentido da menção ao socialismo é claro; a música refere-se sobretudo ao Parsifal de Wagner, que repropõe o mistério da Páscoa.

Uma confirmação feita por Heidegger

Esse ponto também foi bem compreendido e esclarecido por Heidegger: “Se Deus, no sentido do Deus cristão, abandonou seu lugar no mundo supra-sensível, o lugar ainda existe, mesmo se vazio. Esta região vazia do mundo supra-sensível e do mundo ideal pode ser mantida. Ela requer então um novo ocupante e a substituição do Deus deposto. Portanto, novos ideais são instituídos. Segundo Nietzsche (Vontade de potência), isso acontece com as doutrinas de felicidade universal e com o socialismo, com a música wagneriana, ou seja, onde quer que o ‘cristianismo dogmático’ seja reduzido aos extremos. Tem-se então o ‘niilismo incompleto’ [...]”.

Ora, acrescenta Heidegger, tal concepção “pode ser formulada mais rigorosa e claramente da seguinte maneira: o niilismo incompleto substitui, é claro, os valores precedentes por outros, mas os põe no lugar dos precedentes, uma vez que conserva assim a posição de região ideal do supra-sensível. O niilismo completo, ao contrário, deve eliminar o lugar tradicional do valor, o supra-sensível como região separada, e portanto deve por os valores de modo diferente, ou seja, invertê-los”.

Como veremos depois, o estado intermediário caracteriza, de forma exemplar, o mal-estar de nossa civilização.

As máscaras do niilismo
De fato, é justamente aquele niilismo que Nietzsche chama de niilismo incompleto que domina a todos hoje, repleto de obscuras ameaças e perigos.

Nietzsche diz ainda: “Ao valor do que permanece eternamente igual a si mesmo [...] contrapõe-se o valor do que é mais breve e fugaz, o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida”.

Esses valores breves e fugazes parecidos com o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida são aqueles ligados à vontade de potência, e portanto constituem os antigos valores transvalorados segundo a doutrina nietzscheniana; mas em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o fugaz brilho dourado no ventre da serpente vida, se apresentam como as sereias que encantam, e que, vangloriando-se de ser portadores de salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada.

As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento.

A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:

1) o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
2) o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;
3) o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;
4) a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;
5) a difusão da violência;
6) a perda do sentido da forma;
7) a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da “escala de amor” platônica (e do verdadeiro amor);
Cool a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;
9) a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;
10) o materialismo em todas as suas formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.

Obviamente, cada um tem a liberdade de… continuar a lista! Mas eu gostaria que o leitor deste livro dirigisse sua atenção para os remédios para esses males. Pois bem, como já antecipei, parece-me que a sabedoria dos antigos possa apresentar-se ao homem de hoje como cura dos males do espírito, com toda uma série de remédios que, como disse no Prefácio, se não eliminam esses males, podem pelo menos mitiga-los, impondo-se como um pólo dialético propriamente dito, e portanto como construtivo termo de comparação.

Texto baseado no livro: Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais
Fonte:sumateologica.wordpress.com
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